http://www.makepovertyhistory.org Usina de Pensamentos

Criar, mudar, refinar o pensamento! Viver o sentimento e sentir o que é vivido! Enxergar as ilusões recolocar-se na realidade! Ter insights, sentir-se continuamente inspirado... Seja mais um operário na Usina de Pensamentos!

terça-feira, 16 de novembro de 2004

First Thought

The first thought is the best thought.
It is the second thought that taints it.

The first thought is like the camera
that snaps an objective picture of the landscape.
The second thought is
the photographer's unnecessary commentary
on the beauty or ugliness of the picture taken.

The landscape, your experiences,
are just as they are,
neither beautiful nor ugly.
It is our judgement based on attachment and aversion
that spoils every picture we see.

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terça-feira, 12 de outubro de 2004

Imprints

Seeking traces of the mind
is like looking for footprints of birds flying in the sky.
They cannot be found,
though intangible karmic imprints exist.

Likewise, when we pass through life,
may we leave no unnecessary traces,
no trail of mental or physical destruction;
only good karmic imprints.

:-)

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Um programa alternativo: Usina de Pensamentos

A cena passou-se em um dia qualquer da década de 1970, fase aguda da repressão militar. O professor de Geografia foi chamado à sala da diretora, que, além de ter seu papel de gestora, comandava a orientação pedagógica e educacional, a Coordenação e muitas outras funções. Não que não houvesse pessoas para realizá-las. Elas existiam, é claro, mas exerciam seu trabalho segundo regras, fundamentos, princípios e justificativas da diretora e dona do pedaço. Travou-se o seguinte diálogo:

— Professor, chamei-o aqui porque é agora necessário ministrarmos aulas de Educação Moral e Cívica e o escolhi para fazê-lo.

— Mas, por que eu, senhora diretora? Não existem por acaso outros professores mais adequados? Não ministro bem minha disciplina? Não seria desperdício usar-me para a rotina, para o servilismo a uma programação imposta?

— Não, meu caro mestre. Se escolher um qualquer, ele por certo fará o que os militares desejam. Ministrará a disciplina sem sabor, sem criticidade, sem criatividade. Fará dos estudantes apenas mentes robotizadas pela ditadura. Escolhi o professor que mais admiro, aquele que mais respeito e sei que ele, e somente ele, será capaz de criar um programa alternativo: ministrar essa tal de Educação Moral e Cívica com a cara que a imposição requer, mas, na sutileza das entrelinhas, fazer os alunos pensarem e despertar neles a criticidade... E, quando se supõe que estes levam para casa uma bagagem sem cor; na realidade, eles, ao contrário, levam na cabeça idéias cheias de vida e de surpresa. Prepare o programa, apimente reflexões, faça surtir a criatividade, mas organize diários de classe com a cara que o governo impõe.

Dois meses depois desse diálogo, a escola mudou. As aulas de Educação Moral e Cívica passaram a ser as mais procuradas e discutidas, deixando escondidas em um manto de pureza as idéias mais expressivas, os pensamentos mais ousados. Para quem olhasse a escola de fora, lá estavam os conteúdos curriculares convencionais e também a Educação Moral que a ditadura sugeria; entretanto, quem a assistisse de perto saberia que a escola transformara-se em uma fábrica de reflexões, um laboratório de experiências. Mais tarde, “filhos” dessa disciplina, surgiram projetos de defesa ambiental, ações de envolvimento comunitário, campanhas de apoio à construção da dignidade e da honra e serviços assistenciais voluntários.

Os tempos mudaram! Não mais existem, nos currículos, uma disciplina imposta, um programa para se praticar a bajulação e se exaltar a autoridade, uma mordaça à liberdade do pensar. Mas será que a criatividade de uma programação alternativa nasce apenas em tempos de censura? Será que, se convocarmos os professores mais críticos e mais brilhantes, sugerindo-lhes a “criação” de uma disciplina alternativa, não ocorrerão idéias experimentáveis, projetos plausíveis? Será que a escola pode exercer a busca do diferente e do inusitado somente em tempos de terror?

Acreditamos sinceramente que não, assim como não menos sinceramente pensamos que o “aperto” do currículo não é tão cerceado de limites que impeça o criar de alguma outra disciplina que possa ensinar relações interpessoais, ações concretas de defesa da cidadania, projetos que exercitem alternativas de pensamento mediadas por espaços de reflexão, análise crítica do cotidiano, atos e procedimentos que solidifiquem amizades, aprendizagens significativas sobre um melhor comer e se exercitar, para um melhor viver. É importante pensar que a tecnologia tornou a informação mais acessível e que, por mais intensa que ela seja, jamais poderão ser impostas, fazendo com que exista conhecimento sem compreensão, aprendizagens que engessam a mente e impedem a significação e a contextualização. Por mais matéria que se tenha, sempre haverá tempo para melhor as discutir.

É chegada a hora de uma nova alternativa no educar. Não seria o caso de se buscarem, nos professores mais criativos e mais reflexivos, os fundamentos de uma usina de pensamentos? Não poderiam eles, voluntariamente, criar modelos e sugeri-los à Coordenação? Se for necessário (e, em último caso), esses professores podem fazer de conta que o tempo não passou e que a democracia não sepultou a criatividade.

Celso Antunes

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Osama acabou com o 'happy end'

Eu já escrevi aqui que o atentado às torres em NY foi um show de cinema. Foi um massacre onde a visibilidade era essencial para o bom resultado.

Baudrillard também disse isso, mas escrevi antes, modestamente. Era necessário que tudo fosse visto, ao contrário, por ex, do holocausto, quando a ocultação dos fornos era fundamental.

No 11 de setembro, não. Era preciso que ficasse gravada aquela cena do que vai se repetir por toda a eternidade, mostrando o dia em que tudo mudou para sempre.

O que Osama inaugura em 11 de setembro foi um período histórico sombrio de "desconstrução". Bush aproveitou o pretexto e iniciou também a desconstrução da democracia americana, há tanto tempo desejada por seus mentores, como Karl Rove, Cheney e outros. Para isso, ele passou a usar a "política do medo" e a explorar o fato de que é insuportável para o americano problemas não resolvidos. Eles tem de "resolver" os problemas e, no caso das torres e de Osama ,não há solução possível. Já era. Eles pensavam: "Aqui está tudo sob controle, tudo tem princípio meio e fim e termina como nós queremos."

Osama criou um problema insolúvel com o terrorismo suicida. Osama acabou com o conceito de "happy end". A "cultura da certeza" americana foi humilhada por Osama.

Ninguém pode controlar essa guerra sem rosto. Diante dessa impotência, Bush e a direita partiram para um monolitismo paranóico, masoquista, partiram para rever todas as complexidades democráticas, como se elas fossem formas de "fragilidade", de vulnerabilidade, buracos por onde poderia entrar o inimigo.

Todos os movimentos, de um lado e de outro, são regressivos. Osama quer voltar a um islã fundamentalista e, assim, estimula a direita americana de Bush a rever os avanços ocidentais. A direita cristã no poder quer a volta do ego sem inconsciente, quer a volta de Adão e Eva e do homem mínimo diante de Deus. "Give me that old-time religion!"

Não há retorno para o que já está acontecendo. Marx diz que "a economia é uma espécie de luz que dá a coloração do momento histórico, onde tudo acontece com algum reflexo dela". Osama não veio por acaso do deserto. Nem Bush. Ambos são os fetos de um ventre histórico grávido a partir do capitalismo mudado pela globalização, ambos são frutos de um capitalismo gelado, financeiro, não produtivo, que se esvazia a si mesmo, um capitalismo que se auto-aliena e que favorece a manipulação política por gangues como a de Bush.

Só que Osama anseia por um divinismo restaurado. E Bush, em nome de um Jesus mecânico, quer ser o comandante de uma era morta para a razão. Ambos desejam arrasar com uma realidade mundial multiprodutiva, global, inapreensível, o que faz as massas desejarem uma uniformização, algum simplismo ideológico ou clareza religiosa. Ambos desejam redirecionar o progresso e aprisioná-lo num esquematismo religioso e obscurantista. O obscurantismo e a ilusão religiosa são uma vontade mundial. Osama e seu fiel criado Bush vêm satisfazer essa necessidade. Eles vieram para encerrar qualquer esperança platônica, vieram para negar todos os livros, todos os quadros, todos os avanços realmente democráticos que poderiam criar uma revolução laica no futuro, quase a realização de um sonho meio "nietzschiano" de um viver "artístico", um presente dançante e inventivo, sem paraíso, mas também sem desespero.

Assim como o islâmico bate com a cabeça no Corão, nas "madrassas" onde aprendem a ser homens-bomba, Bush (e seus asseclas) quer se vingar dos inteligentes, dos bons alunos que o desprezavam em Yale, onde ele assistia às aulas de ressaca e arrotando de tédio, como nos contam seus professores.

Osama e Bush vieram para trazer de volta a paz da ignorância, o sossego da estupidez, a calma da fé em Alá ou Jesus, eles vieram para nos trazer de volta a proibição, a repressão. A democracia angustia as massas ignorantes.

Assim como Osama quer criar o califado de Alá, quer impedir que o Ocidente continue a poluir a pureza do islamismo "waabista" que ele professa, ameaçado pela nossa liberdade e libertinagem, o Bush quer impedir a continuação da grande e verdadeira América que terminou com Clinton, uma América autocrítica, buscando um diálogo multilateral com o mundo.

Durante o debate, havia momentos em que Kerry soava quase nostálgico, querendo defender os valores maiores ocidentais, europeus, etc... Bush arquejava, arfava de impaciência diante das palavras mais complexas do opositor democrata. Enquanto o Kerry falava de um futuro "em aberto", um processo e não uma "solução", Bush se defendia com palavras mágicas, holísticas, fervorosas como: "No fundo do coração eu acho... Eu creio, eu tenho certeza que...." Bush discutiu sem nenhum embasamento sob seu desejo, apenas a reafirmação da teimosia de achar que tem de perseverar no erro para resolver o problema. Senão houver solução para o terror, que a América seja então trancada num "shelter" mais profundo, que o Desejo seja uniformizado, que a democracia tradicional seja limitada, para que uma nova nação "forrest-gumpiana" floresça, medíocre e sinistra. Bush quer enterrar a era da autocrítica e dos direitos civis, que existiu até Clinton, último filho dos anos 60, até que foi finalmente esmagado por Ken Starr e pela boca traidora da republicana Monica. E agora esse flagelo deve vencer as eleições. Nos USA, não há apenas uma campanha política. Há um golpe de direita em andamento contra a democracia dentro e fora de casa. God save America.

Arnaldo Jabor - estadao.com.br - Caderno 2 - [05/10/2004]

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Lição de humanidade

Vi o documentário sobre o desastre com o Concorde, em Paris, que matou mais de 100 pessoas, em não me lembro mais qual ano. Foi o início do fim do primeiro supersônico disponível na aviação comercial. Pouco depois, os Concordes que sobraram foram retirados de circulação e parece que destinados a museus e exposições.

Não foi o custo do aparelho nem o alto preço das passagens para se voar nele que motivaram a sua aposentadoria. Tampouco o desastre em si, uma vez que qualquer homem e qualquer coisa por ele produzida estão disponíveis ao desastre.

O que espantou os especialistas foi a insignificância da causa que provocou a catástrofe. Ao rolar na pista para a decolagem, um dos pneus do aparelho foi cortado por uma pequena peça metálica, de 40 centímetros, desprendida de um outro avião que decolara pouco antes. O piloto do Concorde não poderia ver objeto tão pequeno e aparentemente tão inofensivo.

A peça fez explodir um dos pneus das rodas que estavam sendo recolhidas. Um pedaço do pneu bateu com violência na asa esquerda, fazendo um furo, pelo qual saiu o combustível, logo inflamado por uma fagulha. Menos de dois minutos após a decolagem, mais de cem mortos, a poucos quilômetros do aeroporto De Gaulle.

A desproporção entre a causa e o efeito me horrorizou. As criações mais sólidas do homem, que parecem indestrutíveis, perfeitas, costumam ir para o brejo por motivos banais, como o iceberg que afundou o Titanic. No caso do Concorde, a tecnologia da época era bem mais adiantada. Mas o resultado foi o mesmo. Os dois casos são uma lição de humildade que habitualmente esquecemos não apenas na vida pública, mas na vida pessoal de cada um de nós.

Carlos Heitor Cony, FSP, 12/10/2004

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sábado, 25 de setembro de 2004

Lavar as mãos

O sistema educacional autoritário sempre transferiu para o aluno a culpa e a responsabilidade por seu mau desempenho, com o instituto da reprovação. Como se os governantes, os diretores das escolas, os professores, não tivessem nenhuma responsabilidade com o desempenho insuficiente de seus alunos.

Em países onde a educação é prioridade, o efeito perverso da reprovação se concentra na criança que não aprendeu o suficiente para a sua idade, e na família que não deu a ela a atenção devida. O Estado fica tranqüilo, porque o efeito negativo da reprovação fica limitado à criança, e não se espalha pelo sistema educacional.

Mas em países como o Brasil, onde a reprovação é endêmica, apesar das baixíssimas exigências apresentadas pelas provas, o efeito da reprovação não é meramente familiar, ele se espalha por toda a sociedade. Mesmo assim, o Estado lava as mãos.

O problema se agrava porque reprovação provoca mais reprovação: ao ficarem para trás, sem acompanhar os colegas de sua idade, sentindo-se deslocados entre crianças mais novas, os alunos reprovados abandonam a escola depois da segunda ou terceira reprovação.

Alguns voltam a estudar quando adultos, outros nunca. O prejuízo para o Brasil é imenso. Estima-se em R$ 5 bilhões o custo direto do represamento dos que se mantêm na escola, e é incomensurável o custo daqueles que a abandonam.

Assim surgiu a promoção automática, sob a orientação de uma pedagogia moderna que, coberta de boas intenções, retira da criança e da família a responsabilidade da reprovação.

Novamente o Estado lava as mãos. Retira-se a responsabilidade da criança e da família, mas nem o Estado nem a escola a assumem. O problema desaparece por decreto. Deixa de ser considerado, mas não deixa de existir.

O aluno continua reprovado por seu baixo aprendizado, apenas carrega sua reprovação à série seguinte. Ele é incentivado a permanecer na escola, porque acompanha colegas da mesma idade, mas não acompanha o aprendizado.

O resultado é trágico para o Brasil. Ao invés de a criança abandonar a escola, a escola abandona a criança. Ninguém assume a responsabilidade - nem criança, nem família, nem escola, nem Estado. E o Brasil paga o preço de um futuro comprometido.

O caminho está em combinar a moderna pedagogia com a responsabilidade educacional plena. Deixar de lavar as mãos. Não reprimir a criança, mas deixar de mentir para ela, para a família, para a escola e para o país, com uma aprovação injustificada.

A criança deve acompanhar seus colegas de idade até a série seguinte, mas sem ser aprovada. Ela fica com a obrigação, juntamente com sua família, de receber um acompanhamento extra, em horário especial depois da aula.

Assim, a criança que não aprender o que os amigos aprenderam é incentivada a continuar na escola, mas não é premiada por não ter estudado. A família não é penalizada com a reprovação, mas tem a obrigação de dar mais atenção à criança.

Isso já foi testado com sucesso. Entre 1995 e 1999, no governo do Distrito Federal, a escola pública adotou um sistema de ciclos que permitia à criança reprovada ser promovida à série seguinte, sem no entanto ser aprovada. Para que esse sistema funcione, porém, é preciso que o Estado e a escola assumam suas responsabilidades, e parem de lavar as mãos.

Deixem de transferir a culpa para as crianças, ou de liberá-las da responsabilidade de acompanhar as aulas e estudar. Abandonem a opção pelo abandono, pelo "deixa para lá", e assumam seu compromisso com o futuro e com a educação.

Cristovam Buarque

(Jornal do Commercio, Recife, 24/9)

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terça-feira, 14 de setembro de 2004

Filhos Criados

filhoscriados.com.br pretende ser um espaço aberto para a discussão de temas relacionados com a educação e a formação de filhos. Destina-se a qualquer pessoa interessada em conversar abertamente sobre filhos. O site recebe relatos, via e-mail, que serão analisados, editados e publicados em prazo a ser determinado pelos responsáveis por filhoscriados.com.br. O site jamais revelará a identidade dos autores das mensagens enviadas através da área Envie o seu relato.

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domingo, 12 de setembro de 2004

madame butterfly

madame butterfly

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quarta-feira, 8 de setembro de 2004

O Coelho

Certo dia, um mestre passeava no bosque com seu discípulo. De repente, um coelho totalmente branco disparou na frente deles. O mestre, aproveitando-se do momento, perguntou ao discípulo:

– O que você achou disso?

O discípulo entusiasmou-se:

– Parece um deus!

O mestre, fitando-o, contrariado, replicou:

– Você já é adulto, mas fala como criança.

– Tudo bem – respondeu o discípulo, meio contrariado. – O que você achou disso?

– É um coelho – respondeu o mestre.

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terça-feira, 7 de setembro de 2004

Os Freios

Levar a vida sem estar atento a alguns preceitos
É como guiar um carro sem freios
É perigoso tanto para você, motorista,
Como para todos que estão próximos à você

Assim como os freios, os preceitos morais são para o controle, segurança e proteção
Eles não foram feitos para te restringir ou para reprimi-lo
Um carro sem freios nunca poderá ter um bom uso
O mesmo se aplica à pessoa que não possui nenhuma moralidade.

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quarta-feira, 25 de agosto de 2004

Scenery Of Reality

Step through the windows.
Being at the window all the time is like
gazing out of a prison cell's window -
only looking out at freedom,
not being free.

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A Importância da Educação

" Se os teus projetos forem para um ano, semeia o grão. Se forem para dez anos, planta uma árvore. Se forem para cem anos, instrui o povo." (Provérbio chinês)

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domingo, 22 de agosto de 2004

The Wish of Wishlessness

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Uma Obra-Prima feita por grande amigo meu. A semelhança do conteúdo artístico do desenho com a proposta do blog não é mera coincidência.

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sexta-feira, 13 de agosto de 2004

Espiritualidade

Li, no Journal for Advanced Practical Research sobre dois fascinantes projetos que estão sendo desenvolvidos por cientistas do M.I.T. Em decorrência dos problemas ambientais provocados pelo uso da energia os cientistas têm estado à procura daquilo a que deram o nome de ‘tecnologias suaves’, por oposição às ‘tecnologias duras’. Tecnologias suaves são aquelas que têm por objetivo produzir energia sem poluir e com um gasto mínimo ou nulo dos combustíveis. Por exemplo: a produção de energia por meio de moinhos de vento ou de energia solar é macia porque nem polui e nem esgota recursos naturais. Já a produção de energia em usinas movidas a carvão é dura: esgota as reservas de carvão e polui. Preocupados com a crescente demanda de energia, a escassez de recursos e a poluição, os ditos pesquisadores estão trabalhando no sentido de produzir artefatos técnicos que não façam uso nem de energia elétrica comum, nem de pilhas e nem de energia nuclear. O primeiro projeto contempla a construção de um pequeno objeto produtor de luz, com essas características econômicas. Trata-se de um vaso de metal ou vidro, com boca afunilada como numa garrafa, cheio com querosene, do qual sai um barbante grosso e que produz luz quando uma faísca é produzida na ponta do pavio - nome técnico que se deu ao tal barbante grosso. A faísca, para ser produzida, dispensa o uso de fósforos. Basta que se batam duas peças de metal na proximidade da ponta do pavio. Do choque das duas peças de metal salta uma faísca que incendeia o pavio, produzindo uma chama amarelada suave. No momento o pesquisador está lutando com um problema para o qual ainda não encontrou solução: um cheiro característico desagradável, resultante da combustão do querosene. Mas, com os recursos da química, ele espera poder produzir chamas com os mais variados perfumes - o que permitirá que o dito artefato venha a ter o efeito espiritual dos incensos. Esse artefato dispensa o uso de pilhas e de energia elétrica tradicional, podendo ser usado em qualquer lugar. O outro projeto procura produzir um aparelho de som que funcione sem pilhas e sem eletricidade, bastando, para isso, o emprego da energia humana e do efeito armazenador das molas: gira-se uma manivela que aperta uma mola que faz girar o disco que, tocado por uma agulha, produz som através de uma corneta metálica. Com esse artefato é possível ouvir música até no alto do Himalaia.

Nesse momento espero que o leitor já se tenha dado conta de que tudo o que eu disse é pura brincadeira. Cortázar fez coisa semelhante com a história invertida das invenções. Partindo do avião supersônico em que as pessoas nada vêem e ficam tolamente assentadas para chegar mais depressa, Cortázar passa por inumeráveis avanços intermediários, até chegar ao meio mais humano, mais saudável e mais ecológico de locomoção, ainda não descoberto: andar a pé. Claro, isso é pura brincadeira... Brincadeira, porque nenhum cientista iria gastar tempo criando o que já foi criado e abandonado, seja lamparina ou gramofone...

Criar! A criatividade é manifestação de um impulso que mora na alma humana. É isso que nos distingue dos animais. Os animais estão felizes no mundo, do jeito como ele é. Há milhares de anos as abelhas fazem colméias do mesmo jeito, os pintassilgos cantam o mesmo canto, as aranhas fazem teias idênticas, os caramujos produzem as mesmas conchas espiraladas. Não criam nada de novo. Não precisam. Estão felizes com o que são. O que não acontece conosco. Somos essencialmente insatisfeitos e curiosos. Albert Camus disse que somos os únicos animais que se recusam a ser o que são. A gente quer mudar tudo. Inventamos jardins, inventamos casas, inventamos culinária, inventamos música, inventamos brinquedos, inventamos ferramentas e máquinas. Michelângelo inventou a Pietà, Rodin inventou o Beijo, Beethoven inventou a 9ª Sinfonia.

Como é que a criatividade acontece? É preciso, em primeiro lugar, que haja algo que nos incomode. Por que é que a ostra faz pérola? Porque, por acidente, um grão de areia entrou dentro de sua carne mole. O grão de areia incomoda. Aí, para acabar com o sofrimento, ela faz uma bolinha bem lisa em torno do grão de areia áspero. Desta forma ela deixa de sofrer. Aprenda isso: ostra feliz não faz pérola. Isso vale para nós. As pessoas felizes nunca criaram nada. Elas não precisam criar. Elas simplesmente gozam a sua felicidade. Bem disse Octávio Paz: ‘Coisas e palavras sangram pela mesma ferida.’ Toda criatividade é um sangramento.

Como é que a criatividade se inicia? Já disse: inicia-se com um sofrimento. O sofrimento nos faz pensar. Pensamento não é uma coisa. O pensamento se faz com algo que não existe: idéias. Idéias são entidades espirituais. O espiritual é um espaço dentro do corpo onde coisas que não existem, existem. A Pietà, antes de existir como escultura, existiu como pensamento, espírito, dentro do corpo do Michelângelo. O Beijo, antes de existir como objeto de arte, existiu como espírito, dentro do corpo de Rodin. A 9ª Sinfonia, antes de existir como peça musical que se pode ouvir, existiu como espírito, dentro da cabeça de Beethoven.

O espírito não se conforma em ser sempre espírito. Que mulher ficaria feliz com a idéia de um filho? Ela não quer a idéia de um filho, coisa linda. É linda - mas enquanto espírito, só dá infelicidade. A mulher quer que a idéia de um filho - sentida por ela como desejo e nostalgia - se transforme num filho de verdade. Por isso ela quer ficar grávida. Quando o filho nasce, aí ela experimenta a felicidade. Uma idéia que deseja se transformar em coisa tem o nome de ‘sonho’. O sonho deseja transformar-se em matéria. A espiritualidade do espírito está precisamente nisso: o desejo e o trabalho para fazer com que aquilo que existe apenas dentro da gente (e que, portanto, só pode ser conhecido pela gente), se transforme numa coisa, que pode então ser gozada por muitos. A espiritualidade busca comunhão. Hegel dava a esses objetos, produtos da criatividade, o nome de ‘objetivações do espírito’. O caminho do espírito é esse: da espiritualidade pura e individual, para a coisa, objeto que existe no mundo, para deleite e uso de muitos. Os objetos, assim, são o espírito tornado sensível, audível, visível, usável, gozável. Uma canção só existe quando cantada. Um quadro só existe quando visto. Uma comida só existe quando comida. Um brinquedo só existe quando brincado. Um filho só existe quando parido. O espírito tem nostalgia pela matéria. Ele deseja fazer amor com a matéria. E quando espírito e matéria fazem amor, nasce a beleza. Deus não se contentou em sonhar o Paraíso. Se o sonho do Paraíso lhe tivesse dado felicidade ele teria continuado apenas sonhando o Paraíso. Deus não se contentou em sonhar o homem. Se o sonho do homem lhe tivesse dado felicidade ele teria continuado sonhando o homem. Mas ele (ou ela) só se deu por completo quando se transformou em homem: ‘... e o Verbo (sonho) se fez carne (corpo)’. O espírito quer descer, mergulhar...

Tão diferente daqueles que pensam que espiritualidade é o espírito se despegando da matéria, o corpo morrendo para ser só espírito, sem carne e sem sentidos, como se o material fosse doença, coisa inferior. Beethoven por acaso acharia que os instrumentos da orquestra são coisa inferior? Mas como? Sem eles a 9ª Sinfonia nunca seria ouvida! Nesse caso ele ficaria feliz com a sua surdez, porque então a 9ª Sinfonia permaneceria para sempre espírito puro! Michelângelo por acaso pensaria que o mármore é coisa inferior? Mas como? Sem o mármore a Pietà nunca seria vista e amada! E ele ficaria feliz se não tivesse mãos, porque assim a Pietà permaneceria para sempre espírito puro! Deus por acaso acharia que o corpo é coisa inferior? Mas como? Sem o corpo o Verbo nunca viveria como carne e ele, Deus, amaria a morte. Porque com a morte o homem permaneceria para sempre espírito puro...

Espiritual é o jardineiro que planta o jardim, o pintor que pinta o quadro, o cozinheiro que faz a comida, o arquiteto que faz a casa, o casal que gera um filho, o poeta que escreve o poema, o marceneiro que faz a cadeira. A criatividade deseja tornar-se sensível. E quando isso acontece, eis a beleza! (Correio Popular, Caderno C, 10/09/2000)

Espiritual é o jardineiro que planta o jardim, o pintor que pinta o quadro, o cozinheiro que faz a comida, o arquiteto que faz a casa, o casal que gera um filho, o poeta que escreve o poema, o marceneiro que faz a cadeira. A criatividade deseja tornar-se sensível. E quando isso acontece, eis a beleza!

Rubem Alves
(Correio Popular, Caderno C, 10/09/2000)

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quarta-feira, 4 de agosto de 2004

Pensamento e Realidade

A mente humana é constituída de tal forma que não consegue raciocinar senão sobre símbolos acumulados na memória -- jamais diretamente sobre os dados sensíveis, exceto na medida em que a forma deles coincida com a de algum símbolo prévio. Os símbolos, por sua vez, provêm dos dados sensíveis, mas não em linha direta: é preciso um longo e complicado processo de acumulação, filtragem e síntese imaginativas – inconsciente ou semiconsciente na sua maior parte – para que a infinidade de elementos colhidos pelos sentidos se organize numas quantas formas estáveis. São estas formas que, condensadas em nomes ou em qualquer outro tipo de sinais reconhecíveis, constituirão a matéria-prima do “raciocínio”. Este, portanto, só se refere a alguma “realidade” de maneira secundária e indireta, isto é, através das evocações que os nomes sugerem à memória e à imaginação.

O raciocínio, em si, é coisa simples. Até um gato resolve problemas elementares de causa e efeito, proporções, identidade e diferença, etc. Mas gatos, macacos, jumentos e tutti quanti só raciocinam sobre sinais visíveis, presentes fisicamente na situação. O pensamento humano abrange um domínio incomparavelmente mais vasto, não só no espaço e no tempo mas em graus de abstração que vão além do espaço e do tempo. O pensamento animal é bastante certeiro porque seu material é limitado. O humano, praticamente ilimitado, está por isso sujeito a uma dose ilimitada de erros. Os erros raramente estão na mecânica do raciocínio, que não é diferente em nós e nos animais. Está na referência do pensamento à realidade, que é direta e simples no animal, indireta e assustadoramente complexa no homem. Naquele, a memória e a imaginação são, por assim dizer, passivas, ou melhor, reativas. Limitam-se a fornecer as formas estritamente indispensáveis ao reconhecimento dos dados presentes por semelhança com dados antigos. Já a imaginação humana produz formas e analogias que transcendem infinitamente a situação presente, concebendo cenas passadas jamais vistas e devassando o véu do tempo em busca de mundos futuros, de mundos meramente possíveis, de mundos dentro de mundos e até de um mundo para além de todos os mundos, chamado “eternidade”. Para lidar com tudo isso racionalmente, ele não dispõe senão de uma lógica bem parecida com a dos gatos.

Esse é o nosso problema: imaginamos como anjos, mas pensamos como gatos. O resultado é que o mundo dos nossos raciocínios é estreito, pobre, deficitário em comparação com o de nossas percepções e fantasias. Desde os tempos de Neanderthal a espécie humana tem feito o diabo para aprimorar seu raciocínio por meio de artifícios. Rabiscos nas cavernas e o advento da linguagem articulada – é impossível saber o que veio antes -- foram as primeiras modalidades de pensamento artificial. Logo veio uma terceira, não sei se junto com as primeiras ou depois delas: inventar narrativas, guardá-las na memória e repassá-las às gerações seguintes. Sem isso não haveria comunidade organizada nem a descoberta da contagem, princípio da aritmética. Lendas e mitos fundam as civilizações. Logo veio a arte de discutir nas assembléias, que os gregos condensaram na técnica retórica. Da retórica nasceu a dialética de Sócrates e Platão – a arte de comparar vários discursos retóricos, em busca do mais certo --, e desta a lógica de Aristóteles, que os escolásticos, passados dezesseis séculos, aperfeiçoaram muito. O último progresso da arte de pensar, até agora, veio no século XVII, com Leibniz, que teve a idéia de fundir lógica e aritmética, ou melhor, lógica e álgebra. Daí nasceram a lógica matemática, erroneamente chamada lógica simbólica, porque toda e qualquer lógica opera com símbolos, e a linguagem dos computadores, erroneamente chamada pensamento artificial, porque não é mais artificial do que o rabisco do homem de Neanderthal na parede da caverna. Todos os artifícios são... artificiais. Natural, só o pensamento dos gatos. Se o homem inventou tantos artifícios, foi porque entendeu que pensava como um gato e que isso não bastava para uma criatura com a sua amplitude de imaginação.

Mas todo esse progresso é bastante ilusório. Só um número ínfimo de seres humanos absorve, em tempo de usá-los, os novos artifícios de auxílio ao pensamento. E, quanto mais poderosos esses artifícios se tornam, mais complexa e dispendiosa é a sua transmissão às gerações seguintes, maior portanto a possibilidade de confusões no seu uso, somando-se à dificuldade anterior e natural, já considerável, de articular pensamento e realidade.

Na esmagadora maioria dos seres humanos, o abismo entre o percebido e o pensado continua imenso e praticamente intransponível. No caminho que vai dos sentidos ao raciocínio, eles se perdem na trama da imaginação. Vêem a realidade com os olhos da cara, mas não conseguem pensá-la. Pensam outra coisa, sugerida pela imaginação ou repetida pelo automatismo da memória. Mas não sabem que estão fazendo isso. Iludidos pela celebração geral do progresso dos artifícios, acreditam que se beneficiam dele por mero automatismo coletivo, por uma espécie de direito hereditário, sem nenhum esforço pessoal de adquirir o domínio desses artifícios. O efeito dessa ilusão é notável. Quando vários pensam igual ou parecido, chamam a isto “realidade”, e mergulham dentro dela, esquecendo a realidade originária, negando sua existência ou alterando-a na memória para torná-la parecida com aquela que criaram. Põem nisso um empenho admirável, chegando a matar os que se recusam a entrar com eles na realidade postiça. Com o nome de dialética hegeliana, de marxismo, de desconstrucionismo ou sem nome nenhum, a realidade postiça acaba se tornando um novo artifício de pensamento, um método, sobrepondo-se a todos os artifícios e métodos anteriores, dos rabiscos do Homo neanderthalensis à lógica matemática. Mas estes eram conscientemente artifícios de pensamento, não se confundiam com a realidade, ao passo que a nova realidade não consente em ser apenas pensamento artificial. É realidade artificial, e, como tal, não pode admitir a existência de outra realidade fora dela mesma. Daí sua necessidade de negar toda realidade natural, seja na forma de experiência presente, seja em qualquer das versões anteriormente conhecidas. Estas são então declaradas tão artificiais quanto ela mesma. Transformam-se em “produtos culturais” das eras passadas. A partir desse momento, todos os artifícios de pensamento se tornam impotentes. Destinavam-se a preencher o hiato entre pensamento e realidade, agora servem apenas para integrar harmoniosamente o pensamento no corpo da realidade artificial. Já não há portanto verdadeiro e falso, há apenas o adequado e o inadequado, o conveniente e o inconveniente, ou, como os nomeou o educador soviético Makarenko, o politicamente correto e o politicamente errado. Hitler preferia “socialmente” em vez de “politicamente”, mas a diferença é, a rigor, nenhuma. Em ambos os casos, a realidade fica mais distante de nós do que jamais esteve do homem de Neanderthal.

Olavo de Carvalho
Bravo!, julho de 2004

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